ASSIM NASCEU A ...

MOTOVOLKS 1500

"O PROJETO AMAZONAS"


- Motores Volkswagen são usados até em enceradeiras domésticas ... então porque não usá-los para fazer uma moto andar ?

"... Eu tinha uma Harley e um Fusca. Todas as vezes que eu saía de Harley sempre ocorriam pequenos problemas: Você sabe como é quebrava uma corrente, descarregava a bateria, etc... e sempre quem ia como socorro era o meu fusquinha. Aí eu pensei, VOU COLOCAR O MOTOR DO FUSCA NA HARLEY.... Ele nunca quebra!!!..."

Assim, Luiz Antonio Gomide explica, em parte, como chegou a uma moto enorme, misto de Harley e Indian, com motor de Volks 1500 cc.

A "invenção" é de Luiz em parceria com seu amigo José Carlos Biston.

Os mecânicos de 28 e 29 anos, respectivamente, gastaram mais de um ano, atravessando várias noites, tentando soluções simples e também complicadas, com o pouco ferramental que dispunham, para fazer a Motovolks 1500 !

Da genialidade e simplicidade da dupla, nasceu um dos mairoes mitos do motociclismo brasileiro, até hoje cultuado nos inúmeros encontros por esse Brasil afora !


Luiz Antonio Gomide e José Carlos Biston
Criadores e Criatura !


COMO FOI CONSTRUÍDA

O começo do projeto foi no início de 1976 e a primeira Motovolks ficou  pronta em início de 1977.

Partindo de um quadro de Indian 1200 (anos 50), com pedaços de quadros de Harley, e a parte inferior totalmente refeita com tubos de aço sem costura para a adaptação da nova mecânica, Luiz Antonio e José Carlos, conseguiram fazer uma moto "na raça".

Apesar das condições pouco favoráveis, como, pouco tempo disponível, ferramental inadequado, falta de verbas, e outros tropeços, a moto andou e foi aprovada em todos os testes do Instituto de Pesquisas Tecnológicas da USP (IPT), necessários para o emplacamento na categoria especial.

E, segundo Luiz, a moto já rodou mais de 100 mil quilômetros, sem necessidade de nenhuma manutenção especial, a não ser troca de velas, óleo e regulagens periódicas.

O motor recebeu algumas modificações. O dínamo foi rebaixado, a lataria do motor, por causa da ventoinha, foi reduzida em suas dimensões, o virabrequim, bielas e volante foram balanceados, com o volante do motor sendo aliviado para diminuir o efeito giroscópico (tendência da moto inclinar-se no sentido contrário à rotação do motor nas acelerações, como nas BMW. Este fenômeno ocorre em motos de virabrequim girando no sentido longitudinal).


O motor de "fusca" 1500 adaptado no quadro

Além disso, foram colocados dois carburadores Solex 32, e um radiador de óleo com maior capacidade de refrigeração.

O sistema elétrico foi mantido 12V, tornando-se superdimensionado para o consumo elétrico da moto. A bateria também é de automóvel.


Carburador e filtro de ar bem salientes

O câmbio de VW foi o que recebeu maior número de modificações: foi necessário colocar um novo sistema de mudança de marchas, externo, bastante elaborado, para passar o sistema de manual por alavanca, para o pedal esquerdo. Foi praticamente eliminada a caixa satélite, e fechada com uma tampa especial, a saída do semi-eixo direito. Uma alavanca colocada à esquerda do câmbio aciona a marcha ré.

A suspensão traseira recebeu duas molas auxiliares, paralelas às originais, e a dianteira, dois amortecedores (usados na direção do VW) foram colocados paralelamente aos telescópios dianteiros.


Detalhe da suspensão dianteira

A parte estética foi marcada pelo tanque estilo "caixão", feito com pedaços de chapa plana, com capacidade para 25 litros, e alças de caixão, completando o clima macabro.


O tanque !

O banco foi confeccionado em degrau, com santoantonio, também "fabricados" pelos mecânicos.

O painel, totalmente adaptado, pertencia a um Simca Esplanada, e por enquanto tem apenas função estética, pois não funciona.


A Motovolks 1977


A MOTO RODANDO

O uso da mecânica automobilistica permitiu manter a partida elétrica, com o motor de arranque do "fusca". Não há partida com pedal.

O câmbio é de 4 machas e a marcha ré é muito útil, para tirar a moto de situações como a roda dianteira encostada na guia. São aproxiamdamente 330 kg para manejar ... haja "braço" !

A moto rodando tem comportamento semelhante às Harley mas o conhecido ronco do motor VW não deixa esquecer que é a Motovolks.

Pelo fato de selim ser bastante baixo para quem pilota, o centro de gravidade estar situado na linha dos eixos,  e com a distibuição do conjunto mecânico, a moto é bem estável e com bom equilíbrio. Como o motor é de baixa rotação (e superdimensionado), é possível sair em 2ª marcha tranquilamente.


Primeiros passos !

O único problema apresentado é um pouco de vibração, que segundo seus criadores é causada pelas rodas que estão desalinhadas e desbalanceadas.

A embreagem, dura de acionar (foi mantido o sistema do VW, com "chapéu chinês"), já tem uma solução pronta: terá acionamento hidráulico.

Esse exemplar é de certa forma, um modelo experimental, pois já existem mais três Motovolks na "linha de montagem" e vários aperfeiçoamentos estão sendo incluídos na sua construção.

O motor de 55 HP, com muito torque em baixas rotações deixa a moto com aptidões para estradas e longas viagens.

Conduzir em trânsito intenso é relativamente cansativo, pelo seu peso e dimensões (distância entre eixos de 1600 mm).

O seu consumo é de aproximadamente 18 km/l na cidade e de 23 km/l na estrada, usando mistura de gasolina azul e comum meio a meio.

Apesar de não ter o velocímetro ainda não funcionando, a Motovolks, acompanhando um carro, chegou aos 170 km/h, de velocímetro (do carro !).

A estabilidade está bastante relacionada com o peso da moto e a aderência dos penus, pois sua suspensão, com a roda traseira montada diretamente nos amortecedores, e bandeja fixa, não é nada eficiente.

Os freios são bastante eficientes. Dois discos de freio do Corcel na dianteira e um na traseira, com pinças de Variant. Na traseira, foi usado o cilindro mestre do fusca e na dianteira o manete e o cilindro de motos Yamaha.

Os pneus são de Harley, 560 X 16, nacionais.


Domando a "Motossauro" !


AS PRÓXIMAS MOTOS

Depois da construção dasta moto, Luiz Antonio e José Carlos se instalaram em uma oficina maior e estão fazendo mais 3 Motovolks.

As novas motos terão algumas soluções mecânicas em relação à primeira, e diversos componentes, que foram mantidos originais da Harley e da Indian, serão feitos pelos próprios mecânicos, entre eles a suspensão dianteira com todos os elementos e as rodas, que serão de aço em estilo "palito".

O freios a disco continuarão do Corcel, mas as pinças serão do Chevette.

A distância entre eixos foi diminuída em 50 mm, e a parte estética será mais eleborada, pois na primeira moto construída não houve muita perocupação com aparência, sendo mais valorizadas as soluções técnicas.

Uma das novas motos já está encomendada, e além do tanque no tétrico estilo caixão, terá seu assento imitando uma sela de cavalo, a pedido de seu futuro dono ... gosto não se discute !


A AMAZONAS 1500

1978

Depois da publicação do trabalho inicial de Luiz Antonio Gomides e José Carlos Biston na revista Duas Rodas (nº 25, de junho/julho 1977), a Auto Importadora Ferreira Rodrigues, uma empresa de autopeças, se interessou pela moto e resolveu apoiar o projeto, para que a Motovolks 1500 se tornasse comercialmente viável.

O projeto tem o nome de Moto Amazonas e é coerente com o veículo: grande e brasileiro !

O projeto básico é o da Motovolks, mas com um misto de soluções industriais e artesanais.

Com melhores condições financeiras, de trabalho e logística, Luiz, agora auxiliado por vários mecânicos, conseguiu melhorar bastante o acabamento da moto, tornar a estética e a mecânica bem mais integradas, concluir o desenvolvimento da parte elétrica e evoluir as soluções mecâncias.


1º protótipo da Amazonas 1500


O ESTILO

O design escolhido, com paralamas, tanque, bolsas laterias, cúpula de farol e intrumentos, de fibra, farol retangular e motor totalmente carenado, mostram as tendências mais atuais.

O estilo é bem diferente da primeira Motovolks, e os resultados estéticos são mais coerentes com o porte enorme da moto. O visual grandioso foi necessário, em parte, pelo grande número de componentes automobilísticos usados na amazonas, a maioria da própria linha VW, como o painel, com contagiros, velocimetro, e luzes indicadoras, botões de comandos elétricos do Passat, cilindros e pinças de freio, amortecedores e outros veículos, como farol do caminhão Mercedes-Benz, discos do Corcel, e outros.

Vários elementos vem da linha motociclstíca mesmo, como os piscas, lanterna traseira, manetes, etc.

E muitos itens criados e desenvolvidos especialmente para a Amazonas, como os comandos de guidão, entre outros.


A MECÂNICA

A parte elétrica, em realção à primeira Motovolks foi bastante aperfeiçoada, chegando à sofisticação, com recursos como várias luzes indicativas no painel, e até luz de ré, quando a marcha é engatada.

A parte mecânica foi a que mais teve modificações.

O sistema de refrigeração, com a carenagem de motor, tem agora uma pequena ventoinha plástica, além da refrigeração direcionada (forçada) pelas aberturas da carenagem.

O câmbio teve seu acionamento modificado, com novo trambulador do lado esquerdo e a corrente de transmissão do lado direito. As marchas estão mais fáceis de engatar, mas o acionamento do pedal ainda é um pouco duro.

O quadro e as suspensões são de fabricação própria, o sistema de suspensão dianteiro é telescópico, com molas externas, e a traseira tem curso sobre o eixo vertical, com molas e amortecedores, da Kombi, externos. Esse tipo de suspensão traseira é semelhante à usada em grandes cilindradas da década de 50, um sistema ultrapassado, que absorve pouco as ondulações da pista.

Para compensar a dureza das suspensões, um amortecedor com mola acoplada foi colocado sob o selim, que nessa versão pré-série tem uma espuma pouco densa.

A moto foi "emagrecida", mas mesmo assim tem um peso de 257 kg.


Seu lançamento oficial deverá ocorrer até o final de 1978.

A capacidade de produção da AME, Amazonas Motocicletas Especiais, deverá ser de 20 unidades mensais, coerente com as possibilidades de mercado...

Afinal, são 155 mil cruzeiros (o equivalente a 5 Hondas CG 125 Zero Km) !!


Quem puder que compre uma !!


É nacional, de grande cilindrada, grande porte e de fácil manutenção... esse é o maior apelo da maior moto do mundo ... a incrível, carismática, e nossa ...

AMAZONAS 1500


A história da Amazonas, obviamente, não pára por aí ... é muito rica e cheia de detalhes. Iremos, numa próxima etapa, narrar a saga deste mito, com direito inclusive a um Test Drive completo. Aguardem ...

FICHA TÉCNICA
clique aqui

 


Por Ricardo Pupo
Fonte: Revista Duas Rodas Motociclismo nº 25, nº 38, e nº 39
Piloto: Josias Silveira
Fotos:  Motovolks - Sérgio Oreggia
Amazonas - Mário Bock


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Comentários:


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Comentário dos Internautas:


muito bom ver resgatada a história deste ícone pois foi vendida até nos eua e japão com exito, pena que acabou, foi grande lieralmente em todos os sentidos

nome: silvio scortecci
(silvio.scortecci@terra.com.br) Quinta Feira, 31 de Julho de 2008, às 20:00:32


Parabéns pela matéria! Esse é a marca registrada do nosso povo: Criatividade com pouco recurso e muita força de vontade para "fazer as coisas acontecerem"
Daí nasceu um verdadeiro mito!

nome: Rocco Belforte
(exter_6@hotmail.com) Sexta Feira, 1 de Agosto de 2008, às 09:25:49


Sensacional! Eu ainda guardo revistas com a reportagem sobre ela. As últimas Amazonas então, eram lindíssimas! Pena não quererem fabricá-la novamente, teria fila de espera.

nome: Tabajara Aparecido Jorge
(tabajara-tabinha@hotmail.com) Domingo, 3 de Agosto de 2008, às 15:28:45


ótima reportagem, conta de forma bem detalhada o início da maior motocicleta produzida em território brasileiro demonstrando a criatividade desses dois cidadãos. deixo aqui uma sugestão, já que criaram esta moto, amazonas, kahena, etc, por que não criam uma moto com essa mecânica com estilo trail para ser uma espécie de "bmw gs 1200 adventure nacional", imaginem seria uma boa isso até sugiro um nome "Pantanal".

nome: Fernando Sandoval
(fersandmir@bol.com.br) Quinta Feira, 7 de Agosto de 2008, às 01:38:50


Para quem se interessar mais, veja neste link enviado pelo meu irmão: http://www.ameamazonas.com.br/

Um abraço a todos!

nome: Ricardo Macagnan
(ricardo_macagnan@oi.com.br) Terça Feira, 12 de Agosto de 2008, às 10:08:59


procuro por uma dessas a fim de restaurar do meu gosto

nome: mario ribeiro
(marioestradeiro.jr@bol.com.br) Terça Feira, 12 de Agosto de 2008, às 14:13:41


Saudoso Luizão tomamos muitas juntos.
Uma vez contou que indo para uma festa encontrou um cachorro recem atropelado colocou o cão no side car e foi, lá pelas tantas todos já haviam ido dormir ele limpou o animal e deixou próximo a churrasqueira no outro dia quando acordou so haviam os ossos.

nome: Haroldo Gonçalves
(nortonhjg@yahoo.com.br) Terça Feira, 19 de Agosto de 2008, às 07:01:46


Muito boa tarde.
Procuro mais informações tecnicas ( preferencialmente com fotos e medidas) do trambulador e as engrenagens da caixa de marcha da amazonas. E parabéns pela matéria.

nome: Rafael Netto
(rafanetto@hotmail.com) Quarta Feira, 20 de Agosto de 2008, às 14:07:16


OLÁ, MEUS AMIGOS. ADOREI ESSA MATÉRIA,QUE VEM DE ENCONTRO AO MEU INTERESSE, PORQUE PRETENDO FAZER UMA MOTO ASSIM. ESSA MATÉRIA ME DEU NOVO ÂNIMO. SALVEI ALGUMAS FOTOS E TAMBÉM GOSTARIA DE SABER SE CONSEGUIREI EMPLACÁ-LA. ABRAÇOS DO PIRATA.

nome: EDUARDO
(PIRATAHOTBIKE@GMAIL.COM) Quarta Feira, 27 de Agosto de 2008, às 22:10:20


Bela matéria, muito bom rever essa história. Não é da minha época mas admiro muito essa moto.

nome: Odair José
(odairsouza5@hotmail.com) Terça Feira, 2 de Setembro de 2008, às 13:33:26